Overblog Suivre ce blog
Editer l'article Administration Créer mon blog

Présentation

  • : Monique Oblin-Goalou
  • Monique Oblin-Goalou
  • : Mise en ligne de mes articles, sujets de réflexion et réalisations plastiques
  • Contact

Recherche

29 mars 2012 4 29 /03 /mars /2012 19:17

O túmulo de Tutankhamon desdobra-se como um botão de rosa. Mas não foi uma rosa. Fica um botão para testemunhar o passado. A exposição Tutankhamon em Bruxelas traz o fato que a múmia leva à marca de uma ferida aberta com fratura do fémur ao nível do joelho. Da análise recente da sua múmia permite-nos equacionar algumas hipóteses de que era desportista e em forma! Quando se vê os automóveis ligeiros que mobilam o seu túmulo, parece-me difícil não acreditar que o jovem homem de 19 anos tivesse tido o prazer de conduzi-los com os seus melhores cavalos. A hipótese de uma ferida ligada ao uso destes engenhos não é de ser afastada. Pela sua morte, Tutankhamon aproxima-se das nossas preocupações contemporâneas. A condução de veículos de todos os tempos foi associada à sabedoria devido aos riscos incorridos e às relações sempre existentes entre a educação e o automóvel. Estatisticamente as insuficiências técnicas, ou humanas mostram que é impossível reduzir a zero os acidentes. Mas a melhoria da rede rodoviária, a sensibilização dos motoristas às suas responsabilidades mostram que as percentagens de morte e feridos podem diminuir consideravelmente. O auriga é um tema de todos os tempos. Condução e sabedoria estão associadas. O auriga é um arquétipo da condução da pessoa e da liberdade da alma. Há por conseguinte uma relação entre a condução e a filosofia. As palavras, os acidentes, a educação, o peso dos sentimentos e a liberdade… são as mesmas para conduzir e para falar de filosofia.

As imagens do homem que dirige um ou vários cavalos são frequentes e podem ser muito antigas.
Uma das maravilhas do mundo é o auriga
[1]de Delfos na Grécia, a palavra «auriga» em grego significa «o que detém as rédeas». A estátua é um belo jovem que tem rédeas. A estátua foi parte de um conjunto composto por quatro cavalos que atrelavam num carro. Esta obra datada de 477 antes de J. C.. foi um ex-voto de bronze para comemorar o quadriga vitorioso nos jogos pythianos de 478 e 473 a. C. O estilo artístico da obra é um pouco anterior ao período clássico grego. Este estilo chama-se severo. A simplicidade acrescenta-se à ligeireza e à economia das linhas do trabalho que testemunham a sabedoria do artista. Trata-se bem aqui de sabedoria porque, para conduzir, temos necessidade de sabedoria. O auriga é uma imagem mental que existe hoje através do motorista ou do piloto de corridas de automóveis. A velocidade como a rapidez ou a ligeireza com que nos deslocamos de um local para outro foi um objeto de entusiasmo ou seja de oferendas aos Deuses e ainda hoje os grandes pilotos de automóveis são admirados. O que admiramos é a velocidade, mas também a sua sabedoria « Sophia » para praticar a velocidade com conhecimento de causa. A sua capacidade de testar a máquina e participar apesar do perigo que representa para a sua vida. Reconhecemos as melhorias que traz pelo seu conhecimento e a a sua experiência que nos dá dos  carros mais seguros e mais protectores.


Tudo o mundo concordará com isto. A invenção da roda é o início da invençáo do veículo. Ela permite realizar transportes mais pesados e mais rápidos do que a pé e a cavalo, e com o tempo mais rápidos e mais pesados que a cavalo ou de comboio, o camião por exemplo. Os acidentes com cavalos, os acidentes de viação, de comboio foram de os todos tempos uma causa de gravíssimos danos pessoais e de perdas de vidas. Grace Kelly e Lady Diana são dois exemplos famosos. Nas nossas famílias contamos tudos vítimas da estrada. No tráfego diário, as condições são diferentes das corridas. O filme francês, Les choses de la vie (As coisas da vida)[2]é de uma comovente atualidade. A bordo do seu automóvel, o advogado Pierre Delhomeau, a caminho de Rennes onde ia defender um caso, perde a vida num acidente automóvel. O filme conta os últimos pensamentos dele antes de morrer. Ele deixa dramaticamente aqueles que ama deixando uma carta de ruptura no bolso, carta destinada à sua namorada, e as suas lembranças de alegria de viver.


No contexto da rede rodoviária a sabedoria existe para as nossas responsabilidades que não são as do circuito automóvel. Mas é importante ter alguns conhecimentos em física para compreender as forças que governam a condução de um veículo. Circulando com uma velocidade elevada torna-se mais difícil controlar o veículo. De facto ao descrever uma curva, a força entre os pneus e o pavimento aumenta com o quadrado da velocidade e com a amplitude da curva, o que, juntamente com a inércia do veículo, faz aumentar significativamente o risco de derrapagem e de despiste. Para integrar estes conselhos das seguradoras, temos de conhecer noções simples como a força de resistência, a quantidade de movimento, a velocidade, a massa. São conhecimentos básicos que são necessários a todos e todas, o que não podemos recusar às nossas crianças. A condução traduz o comportamento e a força de alma. Os carreteiros tinham a reputação de jurar quando estavam a manobrar. Jurar denota uma falta de força de alma, no entanto pode ser trabalhado por uma educação que ousa a criatividade e a audácia, superar as dificuldades evitando-as, incentivar a constância no esforço.


É a imagem do auriga que Platão escolheu para falar de retórica. O bem falar, vem da alma. Como em qualquer arte para bem falar é necessário amar. Platão fala por conseguinte de amante a propósito do orador e de amado a propósito do jovem. A alma do amante divide-se em três partes na imagem mental de Platon, o cocheiro, e uma parelha de cavalos. «Por sua vez o eleito deixa-se conquistar como segue : do mesmo modo que, no início desta história, dividimos cada alma em três partes, duas que são, por assim dizer, em forma de cavalo e a terceira de auriga, […] Dois, dissemos, um é bom e o outro não».[3]Entre o entusiasmo e a razão, o desejo e a virtude, saber utilizar toda a sua personalidade permite avançar na sabedoria. O carro alado de Platão avança pelo cavalo desagradável tanto quanto pela reserva e o temor do garanhão. Em francês o termo “garanhão” diz-se « étalon » o que significa também padrão: referência para medir, para julgar e ajustar. Para evitar um discurso que está demasiado a semear, sem matéria mas com os vincos do sensível, da afeição, das preocupações da heurística, a atrelagem precisa de ser bem equilibrada entre a medida e o desejo.

O desejo não é desprezível. «Detestava-o porque esquecia-se de me dar carinho […] Tinha duas razões de respeitar o meu professor : queria-me bem, tinha um hálito forte. […] Não me desagradava ter um ligeiro desgosto a superar : era a prova que a virtude não era fácil. […] confundia o desgosto com o espírito de seriedade. Era snobe. […] «O pai Barrault fede» e tudo girou : fugi chorando. A partir do dia seguinte recuperava o meu respeito para o Sr. Barrault, para a sua gola de celuloide e o seu laço. Mas, quando se inclinava sobre o meu caderno, desviava a cabeça retendo a minha respiração.»
[4]A obra de Jean-Paul Sartres, Les mots (As palavras) descreve a sua relação privilegiada com os seus mestres na sua infância. Dá também uma vista interessante da virtude. Sem negar a viturde, denuncia o snobismo que impõe más condições aos virtuosos que se implicam no estudo e trabalho com seriedade. A virtude não é fácil mais é prejudicial juntar-lhe más condições tais como o odor para o jovem J. P. Sartre. Por exemplo, produzir trabalhando regularmente 14h00 por dia, é prejudicial e esta situação põe os virtuosos na dificuldade.


No filme Décomposition symphonique n°9 pour accident de voiture[5]de Félix Etienne Tétrault podemos ouvir o som de uma respiração ou talvez o barulho da assistência respiratória acompanhada de baterias mais ou menos fracas de intensidade com sons agudos que recordam barulhos de máquinas, ritmos que dizem a vida. Quando o fôlego cessa então tudo acaba. Esta música de uma morte por acidente toca as nossas consciências. Todos os motoristas sabem que comprometem as suas vidas, as dos que o acompanham e a de terceiros presentes no tráfego em perpétuo aumento. Sadako Sasaki lança as suas mil gruas que acompanham a legenda de paz do origami. «Escrevi a paz nas tuas asas e voas pelo mundo de modo a que mais nenhuma criança morra assim». São as palavras de Sadako Sasaki. Quando a pessoa morre a sua rosa fecha-se sobre ela, a sua luz deixa o mundo sensível. Os modos de ser e a liberdade não estão ligados aos acidentes. Seria um pessimismo pensar contra os estoicos que os acidentes determinam as nossas escolhas, a nossa consciência. Seria um pessimismo acreditar que as chantagens ao trabalho, a amizade, a calúnia, a prisão pudessem alterar a pessoa. Gilles Deleuze na Logique du sens diz que tudo se joga na ligeireza de estar, no existir, nas crostas frágeis do dia a dia, do trabalho que fazem a vida, que fazem o ser, o plano da existência. O drama é morrer, escrever a carta como Pierre, a personagem de Paul Guimard, ou de estar desprezando, tudo o que faz os
cortes com o semelhante. Quando Pierre Curie, inventor com a sua esposa Marie da radiologia tão necessária à redução das fraturas, morreu sob um veículo pesado, quando Archimede, inventor do cálculo infinitesimal, é morto gratuitamente por um soldado, a relação cada vez é interrompida. A luz retira-se. A humanidade fecha-se um pouco. O ser existe no estar, na presença, na carne. Na morte, o pensamento da pessoa junta-se à memória e ao pensamento de Deus. Permanece movente para inspirar a criação amorosa do visível e do invisível. Na ressurreição, o céu da matéria volta a ser um elogio à Deus que manifesta assim o seu amor sobre todos os céus dos seus filhos. A imagem mental das gruas de Sadako Sasaki está no coração dos homens de todos os povos. A sua legenda está como o pássaro, uma relação entre lugares distantes da geografia física, do coração, do espírito ou da alma, quase nada entre o céu e a terra como os seus pequenos papéis dobrados ou como os papéis do Tibete. O acidente fecha uma rosa. Quando uma pessoa morre num acidente, todos têm a responsabilidade deste recue.


Quando estamos a conduzir os riscos nunca são zero. É necessário diminui-los para respeitar o outro, a sua vida e seus compromissos na sociedade. Para que as flores não permanecem em botão como no túmulo de Tutankhamon. A atualização do túmulo para os cientistas de hoje permite precisar as circunstâncias da morte e mostra esta família reunida com afeição no túmulo. « O importante é a rosa »[6].


A mensagem do Gorgias não é um interrogatório da retórica mas do mau uso que dela pode ser feito. Platão teme a retórica que persuade em vez de transmitir o saber. Ele vê lá um risco para a liberdade da alma e a República. Ele denúncia a desregulação de Callistes, o que está sem se preocupar dos outros : «E a alma? será boa quando nela predominar a desordem, ou quando estiver em ordem e harmonia?»[7]Na tradução francesa, a ideia de desregulação é mais precisa.
« Et notre âme sera-t-elle bonne si elle est déréglée ou si elle est réglée et ordonnée ? »[8] Giorgias acaba por um monólogo para a consideração dos silenciadores esses que não têm liberdade para se expressar e também os mortos. A presença ressonante deles estabelece a consciência. E se Platão tivesse tido esta palavra «consciência», ter-la-ia usado aqui. Na falta dela, ele dá-nos uma descrição da consciência que é útil para nós. No Gorgias, a imagem do homem morto, nú que julga, é o virtuoso frequentemente silencioso que não tem vergonha da sua nudez porque não tem nada a esconder, a imagem da verdade. Todos esses que morreram na estrada constituem o julgamento das mortes. Eles julgam a necessidade de uma conduta caridosa ao mais lento, velho ou cansado ou na posse de um veículo mais pesado, lento a travar ; os mais jovens que ultrapassam sem calcular bem as distâncias… As mortes também são as crianças, os passageiros, os peões, toda esta população inocente que vê-nos conduzir perdida nos choques das máquinas. São eles que nos julgam. « O juiz, também tem de estar nu e morto, para examinar com a sua alma as demais almas, logo após a morte, desassistido dos seus pais e que deixe todo esse ceremonial na terra de modo a que o julgamento seja justo. »[9]


A imagem do carro alado no Fedro de Platão é uma matriz. Quer dizer que é difícil distinguir a metáfora heurística do objeto discutido, a alma. Esta incerteza deixa um largo espaço virtual à reflexão. O Gorgias ameaça as pessoas do inferno. A sua chama é o olhar escaldante das inocentes mortes. Quando o julgamento da consciência é pronunciado como sendo favorável, então o céu de Fedro abre-se e a existência virtuosa metamorfoseia-se em sobrexistência amorosa, num existencialismo do amor. O Fedro é uma matriz voltada para o deus Eros (luz, místico) que é o amor componente da relação. Este amor, então, pode existir com todas as dobras da humanidade passadas no crivo da dialética e da virtude. Assim, volta a dar a sua importância à retórica que tinha sido eliminada pela corrupção. Naquilo, Platão está contemporâneo aos nossos problemas. Uma condução sem amor é perigosa.

 



[1]Museu arqueologico de Delfos.

[2]Claude Sautet, Les choses de la vie, 1970, filme com Romy Schneider et Michel Piccoli. O livro é de Paul Guimard, Les choses de la vie, Ed. Folio, 1973. O filme está à origem do livro.

[3] Platão, Fedro, Tradução : José Ribeiro Ferreira, Biblioteca Nacional de Portugal, Edições 70, 2009, p. 71.

[4]Jean-Paul Sartre, Les mots, Gallimard, 1964, pp. 66-68. « Je le détestais parce qu’il oubliait de me choyer […] J’avais deux raisons de respecter mon instituteur : il me voulait du bien, il avait l’haleine forte. […] il ne me déplaisait pas d’avoir un léger dégoût à surmonter : c’était la preuve que la vertu n’était pas facile. […] je confondais le dégoût avec l’esprit de sérieux. J’étais snob. […] « Le père Barrault pue » et tout ce mit à tourner : je m’enfuis en pleurant. Dès le lendemain je retrouvais ma déférence pour M. Barrault, pour son col de celluloïd et son nœud papillon. Mais, quand il s’inclinait sur mon cahier, je détournais la tête en retenant mon souffle. »

[5]Félix Etienne Tétrault: Decomposition simphonique n°9 para acident de carro, 2010, Internet: Artflx.olympe-network.com.

[6]L’important, c’est la rose, palavra : Louis Amade, música : Gilbert Bécaud.

[7]Platão, Gorgias, tradução : Carlos Alberto Nunes, Internet : scribd.com, LIX.

[8]Platon, Protagoras, Euthydème, Gorgias, Ménexène, Ménon, Cratyle, traduction : Émile Chambry, Flammarion, 1967, p. 256, 504b.

[9]Platão, Gorgias, tradução Carlos Alberto Nunes, Internet : Scribd.com, LXXIX, 524a.

Partager cet article

Repost 0
Published by Monique Oblin-Goalou - dans Articles en portugais
commenter cet article

commentaires