Présentation

Recherche

Articles en portugais

Dimanche 17 juillet 2011 7 17 /07 /Juil /2011 12:47

Entrando no Casino do Estoril, depois da surpresa dos jogos de arquitetura e decoração, você vai descobrir uma sala cheia de máquinas. Desde Montaigne, o jogo é considerado útil para a saúde e para a vida como entretenimento. A diversão não consiste de se afastar da meta, seduzir Atalante, mas abordá-la com três maçãs[1] de ouro: inteligência, imaginação e alegria. O jogo permite a procrastinação, o tempo passa rápidamente a jogar. Algumas necessidades são adiados para o dia seguinte com consequências por vezes infelizes! Lindâ-Lê considera a poesia, a romance, a ficção, como meios de procrastinar, mas os jogos e jogos de vídeo são também uma boa maneira de passar o tempo? Uma abordagem aos jogos, software, mostra vários passos entre a liberdade e a dependência.

Jogos de vídeo que você pode praticar na Internet, como os jogos grátis Moby Dick, máquinas a dinheiro, jogos de cartas, as vezes, são concebidos por uma pessoa e eles não mudam. Neste caso, eles são uma imagem rigida em que a imaginação não tem papel criativo o so num lugar fechado: são imagens fechadas. Jogar sozinho é relaxante. Ser capaz de jogar em rede não muda coisas, mas faz o "vínculum"[2] uma ligação em latim. A relação ao redor do jogo  permite achar da companhia. Os jogadores on-lines em Internet ou em redes compartilham num lugar virtual.

As máquinas a dinheiro nos casinos oferecem uma pequena imagem com um som de jingle. O encantamento do “ritornello” seduziu, não só os jogadores, mas também os músicos e artistas. Gilles Deleuze[3] escreveu sobre o teatro de Samuel Beckett: "A imagem é um pequeno ritornello, visual ou sonoro quando chegou o momento: “a hora requintada…”. Na Watt, os três sapos intercalam as suas canções, cada uma com o seu próprio ritmo, Krak, Krek, Krik. As imagens-ritornellas correm através dos livros de Samuel Beckett ". O conforto, destes mundos cheios de certezas, dissolve as necessidades da vida. O ritornello incita a repetir por novas variantes para fazer melhor. A repeticão, do mesmo gesto, agrada particularmente jogadores digitais. Estes jogos vêm dos simuladores profissionais utilizados na indústria aeroespacial, aviação e outras profissões preocupadas reduzir a probabilidade de acidentes a zero. Nestes jogos as contagens favorecem a repetição. A cada nova tentativa fazem o gesto de novo por uma melhor contagen. O mundo de jogador desmorona-se. Ele perde-se no turbilhão da sua diversão.

 
A sensação de segurança, ao número finito de possíveis incitam a
envolver dinheiro, a correr riscos. Quando o jogador explora as várias metamorfoses do jogo. O espaço do jogo torna-se ressegurado. O jogador começa a apostar dinheiro, ignorando os perigos potenciais. A doença do jogador, que é proibida na entrada um casino, é uma forma grave de procrastinação. De fato, o sabor do jogo pode perder a pessoa, no senso de perder os papéis que ela face na vida, a liberdade de iniciativa, de suas máscaras múltiplas. A diversão torna-se um pesadelo.

As formas mutantes da arte surrealista renovam as questões tabu da sociedade. No espaço do mito, a batalha entre Madame Mim e Merlim, o mago, permite os excessos da imaginação em metamorfoses divertido e variado. Também, no caso dos desportos coletivos, jogos de xadrez, ou palavras, os jogadores reunem-se em torno de regras que definem um lugar onde o espírito e a imaginação se expressam sem preocupações.

O jogo é bom para a saúde, disse Montaigne, porque ele amava a vida.O entretenimento, diz ele, é um modo de vida com todas as dobras de sua humanidade, sem fugas. É um prazer de viver no molde fechado de imagens, em mais ou menos complicadas regras de um jogo de cartas ou um desporte de equipe. Jogar dinheiro para o casino faz a analogia de possiveis e valores. Um risco mensurável entra no jogo. No lugar do jogo permite o risco de excessos da imaginação, na liberdade da variação. O prazer é acrescido, na condição de permaneçer razoável, claro!


Bibliografia:


1 Montaigne, De la diversion, Essais, Livre III, chapitre IV. Cité in http://www.bribes.org/trismegiste/es3ch04.htm.

2 Gilles Deleuze, Le Pli, Les éditions de minuit, 1988, p. 150.

3 Gilles Deleuze L’épuisé in Samuel Beckett, Quad et autres pièces pour la télévision, Paris : Editions de Minuit, 1992, p. 72.



 

 

 

Par Monique Oblin-Goalou - Publié dans : Articles en portugais
Ecrire un commentaire - Voir les 0 commentaires
Samedi 6 août 2011 6 06 /08 /Août /2011 12:34

Durante os meus cursos do português, nós fizemos o papel de vendedor de caixão. O assunto divertiu-me. Um dos argumentos da vendedora era que o caixão era vermelho.

 

Sendo um seguidor, ocasional, do grande humorista francês Claude Serre, permiti-me, um dia depois, fazer humor negro com as palavras das lições. Era sobre brincos e piercings… . Em resumo, dentro do éforço para avançar na aprendizagem da língua, eu deixo-me ir ao prazer de um humor negro, um humor sem alma, um humor de sombra preocupado com o corpo.

 

Os portugueses dizem « humor negro » e os franceses « humour noir ». « Niger » significa, muito simplesmente, preto em latino. Então, perguntei-me o que humor queria dizer em latino. « Humour » vem de « humor » que quer dizer húmido. A humidade da terra é necessária de modo que o trigo não seque. Em latim diz-se : « Aliud cecidit super petram, et natum aruit, quia non habebat humorem. »[1]. Sem a humidade o trigo morre. O evangelho do semeador diz que uns trigos caiem sobre a pedra, crescem, e secam por falta de humidade. O trigo que cai em cima da pedra faz uma imagem mental. Não é só a metáfora das almas duras, ela é igualmente a metáfora dos almas sem humor, sem emoções.

 

A palavra « humour » provém do inglês humor, ele mesmo vem do francês « humeur », e do latim humor (liquido). Ná origem, a palavra humor teve um sentido unicamente médico. Ná Idade Média, havia uma teoria dita « sobre os humores ». Ela considera que, no homem, havia quatro humores ou fluidos principais, A bílis preta, a bílis amarela, a fleuma e o sangue, que são produzidos por diferentes όrgãos do corpo. O equilíbrio dos humores permitia permanecer em boa saúde. Por exemplo, demasiado fleuma no corpo provocava perturbações pulmonares e o organismo tentava tossir e cuspir para restabelecer o equilíbrio. A harmonia dos humores era reencontrada através de um regime alimentar, dos medicamentos e da sangria.

 

A linguagem corrente conduz a utilizar a palavra humor para evocar emoções. Cada um pensava ainda, no século XIXe, que as perturbações do comportamento ou os temperamentos provinham de certos líquidos que corriam nas veias. Este engano explica a derivação e a mistura que se operam sobre o termo « humor ». A conceção grega da catarse como modo de tratamento terá consequência sobre certas éticas. Este arcaismo médico encontra ecos, a propósito da sexualidade e da dissolução, em Montaigne inspirado por Cícero. Todos vão estar de acordo com a ideia que não é possivel haver sexualidade com todos os typos de corpos[2]. O épicurismo tem os seus limites, que denuncia Sigmund Freud, quando a infância não é respectada. A psicanálise aparece numa Europa angustiada onde reaparecem os movimentos messiânicos libertinos como o sabataísmo[3].

 

Sigmund Freud dá uma má definição da estética por ser completamente independente e libertada de qualquer orientação utilitária das coisas. Felizmente, ele excede esta concepção para ver as tendências do espírito e de qual maneira o espírito serve as coisas[4].

 

O humor negro, como o jogo de espírito, pode ser uma maneira de se defender. É agressivo porque não é privado de crueldade. O humor negro oferece imagens mentais onde cada um se pode reconhercer e bulir.

 

Sigmond Freud diz que o cómico tem a sua localização psíquico no préconsciente[5]. O préconsciente é a relação entre o inconsciente e o consciente. O humor de Claude Serre tem a capacidade de revelar o inconsciente. A profissão médica é geralmente adepta das obras de Claude Serre. Encontra-se nas familias de médicos o livro Humour noir et hommes en blanc[6]. O inconsciente do médico, as suas angústias na frente das suas responsabilidades revela-se nos seus desenhos. Os pacientes podem também apreciar. Este olhar sobre o hospital faz sair certas angústias do inconsciente. É normal ter medos, mas não é facil compartilhá-los. Humour noir et hommes en blanc permite uma consciência coletiva no humor mesmo se é negro. Claude Serre desenhou outros álbuns como L’automobile[7], por exemplo.

 

De acordo com Sigmund Freud, o prazer vem da elevação à idade adulta. « Esta elevação, diz, o adulto poderia bem tirá-lo da comparação de seu eu actual e seu eu infantil. Esta opinão encontra-se, até certo ponto, corroborada pelo papel atribuído ao infantil no processo neurótico do recalcamento. »[8]O infantil não faz necessariamente referência à infância real mas ao personagem psicológico da criança como metáfora na descrição analítica do espírito humano. Sigmund Freud faz talvez um erro quando está a falar de elevação para a idade, como vamos ver adiante. Não podemos dizer que há elevação, mas dialoga entre os papéis que a pessoa dá a ela mesma. Esta igualidade permite evitar a desvalorização do papel da criança numa pessoa.

 

A componente energética presente na ideia de transfêrencia poderia deixar acreditar que Sigmund Freud não se demarcava da antiga teoria dos seus desequilibrios. Mas tudo é diferente com Sigmund Freud, a transfêrencia efectua-se na matéria espiritual e a sua ação tanto quanto na ação do corpo. Simbolização permite escolher e controlar os seus atos. A palavra de espírito ou a imagem mental são atos que simbolizam as angústias e « poupam a energia necessitada pela inibição »[9]destas angustias. E aquilo é particularmente verdadeiro para o humor negro. O prazer do cómico vem da economia do investimento e o prazer do humor vem da economia do sentimento. Fala-se de humor negro porque sobre os assuntos como a morte ou a doença, permitem poupar não somente a energia necessária para a inibição mas a necessária para o sentimento. A riqueza da descoberta de S. Freud referir-se-á simbolização, à transfêrancia da energia afetiva para atos criativos. Uma alma vais ser criativa, pode consolar… se é sensivel, afetiva, atenta, se está pronta para se investir, se ela tem tudo o que faz o « humorem », o amor. A relação bem sucedida em humor não é sem amor. A pessoa é mais sensivel ao humor se é generosa. A ironia é sem amor, Impede a realização no pensamento e no mundo, a mistura alquímica dos sentimentos e da ação.

 

À ironia, falta o humor, a participação da vida. Ó humor pode ser o que range, se não for um meio de exclusão, então se ele for a prova de uma preocupação comum de avançar junto da humilidade e da simplicidade da vida terreste. Este é possivel a uma condição que a simplicidade e a humilidade não sejam uma renúncia mas um compromisso de uns com os outros na sociédade.

 

« Todos os homens não são capazes de resto de adoptar o atitude humorística ; Está lá um dom raro e precioso, e em muito falta até que a facultade para desfrutardo prazer humoristico que nós lhes oferecemos. E finalemente quando o superego tenta, pelo humor, consolar o eu e o proteger do sofrimento, Ele não nega a origem dele a diversão dela da instância parental. »[10]

 

A abordagem de S. Freud não parece distant da obra Arte Poética de Aristóteles, a concepção dele de arte como meio para respeitar o equilíbrio psíquico, o rire como catarses. Mas, poderia ser interessante distinguir várias coisas : que está sem distancia, tirar a vela do inconsciente e a distenciâ tomada com si próprio, o rire e a ironia, a sátira, a comédia e o drama. Estes duplos na arte o na imagens mantais são úteis a o conhecimento dele. Temos de fazer a diferença entre tirar a vela para o saber e revelar. Revelar significa dizer um segredo. Ora, à nossa época o conhecimento não é resevado para alguns. Jà é revelado. Porque não podemos saber quem são estes alguns. É um princípio democrático. A democracia não pode existir sem o conhecimento. Com reservas que sabemos os limites da nossa humanidade e que reconhecíamos o trabalho dos outros.

 

A distância tomada com si mesmo é um tema recurrente do pensamento oriental através da imagem da ave que deixa a pessoa para retornar iniciado a ele no Um.

 

No espelho do amor humano, é possível ver a sua alma. Não se pode esquecer os perigos do amor físico sem pureza, o amor não sagrado, e não virou a Deus. A pergunta é difícil e prefiro deixar a palavra com a poesia. A impureza separa de Deus. Deus poderia dexar a noiva dele se ela não fosse virgem. A noiva pode ser considerada como a alma no pensamento oriental.

 

« Se busco o meu coração, encontro-o no teu quintal,

Se busco a,minha alma, não a vejo a não ser nos cachos do teu cabelo.

Se bebo água, quando estou sedento

Vejo na água o reflexo de teu rosto.

 

Quero fugir a cem léguas da razão,

Quero de presença do bem e do mal me libertar,

Detrás do véu existe tanta beleza : lá está o meu ser ;

Quero enamorar-me de mim mesmo,

Ó vós que não sabeis !

 

Na jardim, há mil bonitas com os rostos lunares.

Há rosas, violetas que cheiram o almíscar,

E esta água que cai gota a gota no riacho,

Tudo é pretexto para meditação… Há só Ele… só Ele. »[11]

 

As passagens pelo mundo sensível, e o céu de Mercúrio, determinam a presença de Deus, a Origem. A humanidade não pode negar um céu para encontrar Deus, ou da sua presença para o mundo sensível, ou da caverna estrelada. Iblis é este que salta céus e cai mais baixo que o último céu.

 

« A condição destes povos muito antigos era ainda a de uma humanidade celestial, que quer dizer que, contemplados todos os objetos possíveis no mundo e à superfície da Terra viam-no certamente, mas pensavam, por eles, as coisas celestiais e divinas… » [12]O engano de Henry Corbin foi de pôr estes povos no passado quando são os contemplativos, os observadores, os namorados, todos os papel, as dobras de cada uma das nossas almas.

 

De acordo com Rumi o mundo sensível e a beleza são uns caminhos para Deus. Como vimos, Deus passa pelo relatório da vida. Mas Sohravardi[13]vai mais longe. Sohravardi escreve que os deficientes, os doentes, as mulheres e as crienças têm muita proximidade com Deus. Há uma importância no respeito pela pureza da infância, da virgindade, do respeito pelo corpo, em resumo pela diferença. O humor é possivel quando a pessoa preservou a sua infância tanto quanto a sua instância parental.

 

A abordagem religiosa não é em oposição com a abordagem cientifica quando Sigmund Freud escreve que sob a influênçia da educação se produzem os recalcamentos enérgicos, desde a infãncia, de certas tendências da sexualidade infantil[14]. Estes recalcamentos são necessários para assumir uma vida adulta de acordo com as vias normais[15]. Os papéis da família, da escola, da educação preparam o papel social.

 

De acordo com a abordagem psicanalítica, é necessário não expôr as crianças a certas imagens do humor negro que são as imagens recalcadas. Isso refere-se igualmente aos adultos na medida em que é feito violencia ao papel da criança. A criança é a metáfora da dobra do espírito para o qual a educação faz obstáculo a certas derivações comportamentais e permite assim ao espírito, libertado da preocupação de reprodução, de orientar-se para vias mais criativas. A criança é então o resultado de um papel moral. Saída do pensamento de S. Freud parece-me interessante inclinar-me sobre a análise transacional. Ela consiste no estudo e na luta contra a deficiência de certas relações no isolamento dos atores da empresa em papéis restritivos. Um destes enclausuramentos é a metáfora da infância que representa, na pessoa ou na relação, a que acantonar-se-áo papel das emoções espontâneas, ou da intuição e da expressão dos sentimentos. Uma demasiado grande generalização destes modelos representa um perigo de esquematização. Da mesma maneira que Kafka denunciava os papeís demasiado marcados do Pai, a nossa época tem necessidade de ver o despeito que ela tem pela infância e o relatório inábil da amoralidade que associa à infância. A análise transacional é muito útil mas é importante saber que não tem conta dos papéis do mendigo, do jogador, do investigador, do sonhador… porque o seu resultado é a dobra do adulto. A análise transacional acompanha, mas não diz claramente qual é a relação entre as componentes da personalidade e tudo o que faz a beleza do ser ao mundo. Quando Sigmund Freud fala de sexualidade infantil ou sexualidade em geral opõe as dobras físicas da sexualidade homem, mulher, criança aos papeís morais que a vida nos dá, mendigo, sonhador, racional, sedutor… . A distenção não é fácil ; Por exemplo, a viúva terá a assumir um papel moral de pai em mais do que de mãe. Isto não é contraditório na medida em que cada um leva nele um « animus » e um « anima », para retomar os termos de Karl Gustav Jung. As pessoas físicas podem tornar-se pessoas morais ou ter papéis morais. A pessoa moral da criança está presente em cada um como direito a uma ingenuidade.

 

A análise transacional serve a pessoa moral[16]da empresa. Na França, a declaração dos dereitos do Homem permite um justo equilíbrio entre a pessoa moral e o indivíduo.

 

Recordemos duas coisas do assunto do humor negro : a necessidade de compartilhar a angústia e a importância das barreiras do recalcamento. Estes dois elementos parecem contraditórios em redor do humor negro. Certas imagens do humor negro funcionam apenas como se fossem consumidas com grande moderação e se a pessoa souber ser preservada dos seus papéis de criança, de parente, de irmão, de irmã e se realmente existir um diálogo entre os diferentes papéis que o indivíduo assume. Para falar de maneira mais geral, certas angústias não se compartilham em todas condições e situações.

 

Esta conclusões poderão parecer de uma grande banalidade como a retoma dos papéis da escola, da família, a importância da arte, do humor. A psicanálise, como toda a Ciência, mesmo nas suas trincheiras mais complexas, nunca desiste-se do bom senso e junta-se às preocupações de parente atento a transmitir as regras da moral.

 

A moralidade não pode ser relativista. A moralidade é todos os princípios, as regras, os valores a que se dá uma sociedade. Estes elementos estabelecem a consciência coletiva e individual da sociedade. Entre a entidade legal da sociedade e a pessoa individual não são necessariamente os mesmos interesses mas não há nenhuma mudança de medida. E quando Deus deu dez ordens a Moisés, Ele passa pela pessoa natural de Moisés. Jesus dá no Novo Testamento, um aspeto de qual é a moral, por via da pessoa natural dele. Ele mostra o compromisso dele para o mundo. A moralidade é a medida não relativista de uma sociedade. A moralidade que está na balança humana, pode evoluir de acordo entre as consciências coletivas, as consciências morais, as consciências individuais. Não se pode confundir divergência de interesses e divergência de medida onde entra em jogo a relatividade.

 

As regras morais não são as mesmas em cada sociedade. Mas há uma parte, não relativista, universal da moralidade onde todos unem os interesses das pessoas particulares e das pessoas morais. A comunidade internacional poderia reconhecer mais claramente os direitos das pessoas morais, da criança, da mulher, e também do homem. A pessoa natural que representa a entidade legal da criança não seria necessariamente uma criança sabendo que cada um tem uma parte de infância que precisa de ser protegido.

 



[1] Padre Antonio Vieira, Sermões, Porto : Lello & irmão-Editores, 1959, volume I, pp 3-38.

[2]Não podemos haver sexualidade com todos os typos de corpos contrariamente a os propósitos de Cícero e de Montaigne. « Conjicito humorem collectum in corpora quoeque » Cicéron, Tusculanes cité in M. de Montaigne Essais III, Gallimard, 2009, p. 79.

[3] Sabbataïsme do nome de Sabbataï Tsevi 1666 um dos mais famosos dos falsos messias.

[4] Les « tendances de l’esprit et de quelle manière l’esprit les sert » S. Freud, Le mot d’esprit et son rapport à l’inconscient, Macintosh, Chicoutimi, 2002, p. 86-87.

[5] « Le comique a sa localisation psychique dans le préconscient » in S. Freud, Le mot d’esprit et son rapport à l’inconscient, (trad. Marie Bonaparte, Dr. M. Nathan) Paris, Gallimard, 1971, (cégep de Chicoutimi) p. 205.

[6] Claude Serre, Humour noir et hommes en blanc, Glenat, 1972.

[7] Claude Serre, L’automobile, Glenat, 1976.

[8]« Cette élévation, dis-je, l’adulte pourrait bien la tirer de la comparaison entre son moi actuel et son moi infantile. Cette opinion se trouve dans une certaine mesure, corroborée par le rôle dévolu à l’infantile dans le processus névrotique du refoulement. » S. Freud, Le mot d’esprit et son rapport à l’inconscient, p. 204.

[9] Les images mentales comme actes « épargnent l’énergie nécessitée par l’inhibition » S. Freud, Le mot d’esprit et son rapport à l’inconscient , p. 211.

[10]« Tous les hommes ne sont pas capables d’ailleurs d’adopter l’attitude humoristique ; c’est là un don rare et précieux, et à beaucoup manque jusqu’à la faculté de juoir du plaisir humoristique qu’on leur offre. Et finalement quand le surmoi s’efforce, par l’humour, à consoler le moi et à le préserver de la souffrance, il ne dément point par là son origine, sa dérivation de l’instance parentale. » S. Freud, le mot d’esprit et son rapport à l’inconscient, p. 211.

[11] Rumi, Odes místicos.

[12]« La condition de ces très anciens peuples était encore celle d’une humanité céleste, ce qui veut dire que, en contemplant tous les objets possibles dans le monde et à la surface de la Terre il les voyait certes, mais il pensait, par eux, les choses célestes et divines…  Henry Corbin, Face de Dieu face de l’homme, Flammarion, 1983, p. 48. Cité in Monique Oblin-Goalou, Le Rhizome sous l’arbre, Le virtuel au-delà des images lumineuses, Lille : ANRT, 2008, p. 93.

[13]Sohrabvardi é o iniciador da sabedoria das luzes, o autor do Kitâb Hikmat al-Ishrâq. Esta sabedoria nasceu da influência do sufismo, e da sabedoria d’Ibn Sina e do conhecimento da antiga sabedoria. O desejo da alma girada para um objetivo luminoso preserva das paixões carnais e da ira.

[14] Sexualidade infantil : O pazer de assumir, na criança, a identidade masculina ou feminina dela.

[15] S. Freud, Cinq leçons sur la psychanalyse, Ed. Payot, 1966, p. 53.

[16] A pessoa moral é representada por pelo menos uma pessoa física como um presidente para o estado. Porque é a pessoa física que permite ser comprometido. Então, o poder dos outros sócios é limitado.

Par Monique Oblin-Goalou - Publié dans : Articles en portugais
Ecrire un commentaire - Voir les 0 commentaires
Samedi 26 novembre 2011 6 26 /11 /Nov /2011 15:50

A criança não tem necessidade de ler e de saber ler.

 

Desde há um ano na rua, em lugares públicos como a igreja ou na sala de espera de um medico, pude constatar que certas crianças entre dois e cinco anos eram estrábicas. Estas crianças não levavam óculos. Pareceu-me também estar em contato com uma criança fortemente míope que não levava óculos. Em todos os casos, não pude fazer nenhuma pergunta e despitagem porque o encontro foi demasiado curto. Não pensei mesmo em entrar em contato com os pais tão poucos foram os minutos que nos reuniram.

 

Na medida em que sou ótica, desejo falar sobre a minha preocupação no meu Blog. Esta preocupasão talvez não seja justificada porque as crianças que encontrei por azar, talvez, há muito tempo, têm sido seguidas por um oftalmologista e têm podido fazer nada. Um óptico pode incitar as crianças a ver um oftalmologista para fazer um controlo médico o mais depressa possivel. A minha escola dizia : « Não há idade para detectar um problema visual ». Não é demasiado cedo para se assegurar da visão do seu filho. Com a técnica moderna, existem instrumentos para medir o defeito visual. A criança não tem necessidade de ler e de saber ler.

 

Esperar divide as funções de convergenciâ e de acomodação. No caso de defeito forte, o cérebro suprime uma imagem, por conseguinte, suprime a função de um olho. Se um olho não trabalha numa idade mais jovem, ele vira para o nariz. O pior é que se pode virar só um pouco, e então os pais não vão ver nada do que se passa, e não vão achar que é importante ver um médico. Quando o olho se voltou, jà é muito tarde e mais dificil para o médico recuperar a acuidade visual da criança.

 

O mais doloroso é ver crianças que têm um atrasa psicológico e cujos defeitos visuais não são tomados em conta. Esta advertência é certamente inútil porque é certo que desde há muito tempo os pais se preocupam com a visão dos filhos o mais cedo possível. Mas acho que não é mau repetir.

Par Monique Oblin-Goalou - Publié dans : Articles en portugais
Ecrire un commentaire - Voir les 0 commentaires
Samedi 26 novembre 2011 6 26 /11 /Nov /2011 15:52

Portugal beneficia de bonitos edifícios, palácios, castelos, abadias, pontes, estradas. O povo português na sua diversidade participou de livre vontade ou de força para estas maravilhas como testemunha a história da construção de Mafra, na novela de José Saramago Memorial do convento.

 

O exemplo da construção do capítulo do mosteiro de Batalha é interessante. Este tem 19 metros quadrados e 20 metros de altura. O projecto era considerado tão perigoso, que só foi construído através de condenados e ruiu duas vezes durante a construção. De acordo com a lenda o arquiteto mestre Huguet teria dormido lá de livre vontade para convencer aqueles que duvidavam.

 

As bibliotecas, nas suas arquiteturas, são preciosas. Mais prático e mais estético é a da Universidade de Coimbra. Ela tem decorações inspiradas pela China. A de Mafra também é magnifica mas a decoração não foi terminada. E não falei de biblioteca de Evora.

 

O acolhimento português é famoso no mundo. Portugal tem os mais bonitos hotéis com a melhor qualidade de serviço. Nomes famosos como Buçaco, Tivoli em Sintra estão associados não somente a lugares mágicos mas igualmente a hotéis de grande qualidade.

 

Estes alguns exemplos do Portugal, que conta com uma multidão de monumentos, só tem o fim de mostrar de que a construção de um palácio ou um mosteiro excede aqueles que os utilizam.

 

A riqueza de um país como Portugal não pertence-aqueles que fizeram construções. Mas eles estabelecem a herança (héritage) cultural e a identidade das pessoas que se encontraram ao redor de um projeto real além da sua variedade, cultural, histórica. Os gerentes de projeto que eram de nacionalidades diferentes podem ter dado a estes monumentos um estilo internacional. Este fenômeno também existe no nosso tempo.

Tendo esta, monumentos poderiam ser devolvidos aos usos de origem, como o castelo de Guimarães que recuperou novamente o poder político. Por que não fazer o mesmo com certas abadias com um tipo de usufruto.

Par Monique Oblin-Goalou - Publié dans : Articles en portugais
Ecrire un commentaire - Voir les 0 commentaires
Vendredi 23 mars 2012 5 23 /03 /Mars /2012 19:04

Os portugueses gostam de utilizar azulejos nas suas obras arquitectonicas  ? A geometria das decorações recorda às vezes a arte óptica em ritmos que cansam o olhar. Os motivos dos anos 60 não estão mais ao gosto dos nossos dias mas as realizações recentes testemunham a flexibilidade da humilde faiança.

A sua utilização assegura aos nossos interiores o conforto da limpeza nas casas de banho , nas cozinhas e nos hospitais. A louça de faiança no museu da marinha em Belém mostra a sua importância na melhoria das condições sanitárias dos viajantes para viajar mais tempo e mais distante. A faiança apresenta grandes qualidades de cores que iluminam os interiores tanto quanto as fachadas pela sua maneira de reter a luz. As cores não se alteram durante os séculos, fazendo da faiança um testemunho fiél das artes decorativas. A técnica usada na faiança e a historia não se opõem mas revisitam-se perpetuamente na criatividade dos seus artesãos. A faiança é uma técnica corrente das artes e da arquitectura. Esta frequência e a sua relação com a racionalidade permite de repôr a pergunta da estética.

O farol de Cascais é uma parte do Forte de Santa Maria. O Forte tem uma arquitectura militar seisentista. Foi construida quando o Conde de Cantanhede era Governador das Armas de Cascais. Em 2003-2005 com o projecto de recuperação do imóvel[1] de Cascais, as paredes são rebocadas e pintadas de branco. O interior do forte é pintado de branco e com azulejos monocromaticos brancos com um tom cinza-verde. O farol é exteriormente revestido de azulejos monocromaticos brancos e azuis.

As formas geometricas dos quarteis e as paredes brancas altas em azulejo ligeiramente esverdeado recordam o lado científico do farol e do museu. A luz da construção que reflete durante o dia, lembra a luz do farol à noite, do conhecimento do museu, pela apresentação das óticas de faróis e o seu poder de augmentar, magnificar a luz.

 

Em Lisboa, na Rua do Alcrim, foi recentemente construido um edifício do arquitecto Álvaro Siza Vieira. Os Terraços do Duque de Bragança propõem uma revisitação ao tema tecnico-científico usando o revestimento cerâmico. A arquitectura geométrica branca e a luz dos azulejos aclara a rua Alecrim. Como no farol, a aparência técnica que dão as formas geométricas da faiança junta-se a preocupação de conforto que traz a modernidade a estes apartamentos. Em 1998, Ivan Chermaieff utilizou o vocábulo técnico do azulejo nas composições do Oceanário. Recuperou a tradição de manufacturação do azulejo padrão para a figuração de grandes animais marinhos, tratada informaticamente.

 

O vocabulario dos azulejos é também útil ás imagens mentais da literatura de Lobo Antunes. Prisioneiro na cidadela interior da consciência, as suas imagens mentais surgem do seu amor para a Sofia, a saudade de sófia que não existe sem as relações. As descrições de Lobo Antunes fazem sobressair a carne imprecisa e imperfeita da humanidade na luz dos quadrados de faiança dos hospitais e das sanitas. Lobo Antunes é um médico e conta-nos o homem dissociado, disfarçado, desumanisado. Nada é separado e no seu aquario aseptizado impessoal o homem torna-se peixe, animal. Os ajulejos vêm demorar na pele no aquário brilhante impessoal que faz a quarta. « Quando ensaboo a cara, Sofia, sinto as escamas vitreas da pele nos meus dedos, os olhos tornam-se salientes e tristes como os dos gorazes na mesa da cozinha, nascem-me barbatanas de anjo dos sovacos »[2]. As escamas dos azulejos vidrados são os atributos do silêncio e o frasco, a imagem do caixão de chumbo. A mulher de quem gosta chama-se Sófia. Se esta mulher for a sabedoria, talvez a filosofia, então um sentido novo aparece. Sem amor e só com o desejo de universalidade, o ovo de ouro perde-se. « esta sede de amor raivoso que te escondo »[3]. « as rugas que em torno da boca se multiplicam numa fina teia misteriosa, idêntica à que cobre de leve os quadros de Leonardo »[4]. As obras de Leonardo da Vinci não puderam ser conservadas, não transmitiu a receita da sua pintura por negligência ou temor de compartilhar. O seu saber perdeu-se e com o tempo, o saber levará com ele as obras do mestre. O saber não pode ser sem amor. O temor e o terror destroem o amor e a Sofia. « Eu estava farto da guerra, Sofia, farto da obstinada maldade da guerra e de escutar, na cama, os protestos dos camaradas assassinados que me perseguiam no meu sono, pedindo-me que os não deixasse apodrecer… »[5] O médico permanece sozinho fechado nos seus conhecimentos geométricos da ciência. Porque a ciência não pode fazer nada, sem o amor, o meio da guerra. Para o autor de Os Cus de Judas, a ciência é uma prisão sem escuridão, sem dobras, apenas uns reflexos da humanidade. O seu amor fica sozinho na impessoalidade dos quadrados de faiança. Mas as suas obras são o encontro do amor na prisão da ciência. O vocabulário médico e a saudade tornam-se o molde e o negativo, a imagem escura que fica nos quadrados fechados e brilhantes da limpeza necessária. O personagem de Sofia permite um monólogo onde se exprime o sofrimento de viver sem a infancia, sem a alegria da amizade e do amor, na prisão do silêncio, na decepção das relações humanas. « lucidez sem ilusões dos bêbados de Hemingway que passaram, gole a gole, para o outro lado da angústia, alcançado uma espécie de serenidade polar […] Talvez desse modo se consigam sorrir risos de Sócrates depois da cicuta […] e consiga enfrentar a ferocidade da manhã dentro de um frasco de Logan que a proteja, tal como os cadáveres dos bichos se conservam em líquidos especiais nas prateleiras dos museus […] não se sentir perseguido pelos impiedosos fantasmas da propria solidão, de que os rostos sardónicos e tristes, tão semelhantes ao nosso, se desenham no vidro para melhor nos troçarem : há derrotas… »[6]. Nestas páginas antes a Sofia, dentro a saudade da Sofia, nos reflexos da luz no vidro as luzes sombras destacam-se onde a imaginação incita a ver os duplos de si mesmo onde o pensamento toma formas novas. O “imaginal”[7] forma-se sobre a superfície brilhante dos azulejos, nos reflexos luminosos da ciência impotente na frente do mistério da vida

« Uma das coisas, aliás, que me encanta em si, permita-me que lho afirme, é a inocência, não a inocência inocente das crianças e dos polícias, feita de uma espécie de virginidade interior obtida à custa da credulidade ou da estupidez, mas a inocência sábia, resignada, quase vegetal, diria, dos que aguardam dos outros e deles próprios o mesmo que você e eu, aqui sentados, esperamos do empregado que se dirige para nós chamado pelo meu braço no ar de bom aluno crónico : uma vaga atenção distraída e o absoluto desdém pela magra gorjeta da nossa gratidão. »[8]

 

Os trabalhadores silenciosos sabem que a humanidade não se resume aos números da produção. Tudo se joga entre a situação limite da sala de operação, onde os motivos poderiam desconcentrar a equipa médica, e a alegria de viver da criança presente em nós quando cantamos um refrão. Todas as pessoas têm o direito de guardar um pouco de tempo para compartilhar a alegria de viver na amizade e que a criança não se afasta da vida. « Eram felizes os gaiatos do Bairro Alto. Sentiam uma alegria interior muito grande e a esperança de serem sempre crianças. Eram donos da tradição da rua. Rapazes befejados pela sorte de terem vida. […] Tenho certeza que uma dela é a minha mãe, afirma o Bexigas com convicção e com os olhos cravados de saudade ».[9] A saudade é a capacidade de fazer marcas da vida, como as rugas ou a cicatrizes da varicela por exemplo, as estrelas e os sinais de um lugar ou uma terra[10] nova da alma onde viver em poeta.

A humanidade é desfigurada mas não é Antonio Lobo Antunes que tem os argumentos para denunciar o homem dividido na análise da ciência, nem é mim que parará os massacres dos inocentes[11] no egoísmo. A consciência de cada um pode sozinha vencer a desmoralização, a recusa da sabedoria. A batalha contra o sofrimento não tem fim e não pode ser só a responsabilidade do autro. Onde os padres da Igreja não conseguiram, onde os médicos não conseguiram, os poetas e os políticos não conseguirão também. Talvez a importância não seja a de conseguir mas de reconhecer a importância de cada um no amor e na simplicidade para abrir-mos as portas das citadelas dos medos.

 

Mesmo nas mais ocidentaies formas e vocabulário do pensamento como a ciência e a geometria e o numérico, a poesia e as imagens dos nossos sonhos encontram sombras ou reflexos onde o mundo imaginal se renova incessantemente. A superfície, mesma lisa, multiplica-se para surexistencias maravilhosas nas lagunas brilhantes do mundo sombrio dos peixes silenciosos, nas imagens mentais dos trabalhadores silenciosos. Temos necessidades da poesia e da escrita dos trabalhadores.

 



[1] Arquitectos Francisco Aires Mateaus e Manuel Aires Mateus, o projecto das estruturas é da autoría do engenheiro Joel Sequeira e a instalação electrica de Joule, o programa museológico é da responsabilidade de Joaquim Boiça, fruito de uma parceria entre a Câmara Municipal de Cascais e o Estado Maior da Armada Portuguesa.

[2] António Lobo Antunes, Os cus de judas, Edit. : Leya, rua Cidade de Córdova, n°2, Alfragide Portugal, p. 159.

[3] António Lobo Antunes, Os cus de judas, Edit. : Leya, rua Cidade de Córdova, n°2, Alfragide Portugal, p. 160.

[4] António Lobo Antunes, Os cus de judas, Edit. : Leya, rua Cidade de Córdova, n°2, Alfragide Portugal, p. 160

[5] António Lobo Antunes, Os cus de judas, Edit. : Leya, rua Cidade de Córdova, n°2, Alfragide Portugal, p. 162.

[6] António Lobo Antunes, Os cus de judas, Edit. : Leya, rua Cidade de Córdova, n°2, Alfragide, p. 140-141.

[7] O « imaginal » é uma palavra inventada por Henry Corbin a propósito da obra de Sohravardi. O imaginal é a projeção poética dos nossos pensamentos sobre o mundo sensível ao momento da tomada de consciência de algo. O imaginal é então também um meio heurístico de uma tomada de consciência comum, e uma transmissão dos conhecimentos, porque a consciência é o objecto primeiro do saber.

[8] António Lobo Antunes, Os cus de judas, Edit. : Leya, rua Cidade de Córdova, n°2, Alfragide, p. 25.

[9] Raquel Baltazard, Os gaiatos, Lidel, 2011, p. 18-20.

[10] A saudade aproxima se do imaginal de Henry Corbin, da boémia descrita na crónia de Cosmas, e na poésia de Fernando Pessoa e nas palavras de Bruno Schulz : « Ce qui m’unit à ce poète (Julius Wit) n’est pas seulement le même pays natal, la même contrée terrestre. S’il existe une géographie spirituelle, si dans ce monde intérieur nous occupons tel cercle, telle sphère nos confins avoisines… »Bruno Schulz, Œuvres, Paris : Ed. Denoël, 2004, p. 407.

[11] António Lobo Antunes, Os cus de judas, Edit. : Leya, rua Cidade de Córdova, n°2, Alfragide, p. 26.

Par Monique Oblin-Goalou - Publié dans : Articles en portugais
Ecrire un commentaire - Voir les 0 commentaires
Jeudi 29 mars 2012 4 29 /03 /Mars /2012 21:17

O túmulo de Tutankhamon desdobra-se como um botão de rosa. Mas não foi uma rosa. Fica um botão para testemunhar o passado. A exposição Tutankhamon em Bruxelas traz o fato que a múmia leva à marca de uma ferida aberta com fratura do fémur ao nível do joelho. Da análise recente da sua múmia permite-nos equacionar algumas hipóteses de que era desportista e em forma! Quando se vê os automóveis ligeiros que mobilam o seu túmulo, parece-me difícil não acreditar que o jovem homem de 19 anos tivesse tido o prazer de conduzi-los com os seus melhores cavalos. A hipótese de uma ferida ligada ao uso destes engenhos não é de ser afastada. Pela sua morte, Tutankhamon aproxima-se das nossas preocupações contemporâneas. A condução de veículos de todos os tempos foi associada à sabedoria devido aos riscos incorridos e às relações sempre existentes entre a educação e o automóvel. Estatisticamente as insuficiências técnicas, ou humanas mostram que é impossível reduzir a zero os acidentes. Mas a melhoria da rede rodoviária, a sensibilização dos motoristas às suas responsabilidades mostram que as percentagens de morte e feridos podem diminuir consideravelmente. O auriga é um tema de todos os tempos. Condução e sabedoria estão associadas. O auriga é um arquétipo da condução da pessoa e da liberdade da alma. Há por conseguinte uma relação entre a condução e a filosofia. As palavras, os acidentes, a educação, o peso dos sentimentos e a liberdade… são as mesmas para conduzir e para falar de filosofia.

As imagens do homem que dirige um ou vários cavalos são frequentes e podem ser muito antigas.
Uma das maravilhas do mundo é o auriga
[1]de Delfos na Grécia, a palavra «auriga» em grego significa «o que detém as rédeas». A estátua é um belo jovem que tem rédeas. A estátua foi parte de um conjunto composto por quatro cavalos que atrelavam num carro. Esta obra datada de 477 antes de J. C.. foi um ex-voto de bronze para comemorar o quadriga vitorioso nos jogos pythianos de 478 e 473 a. C. O estilo artístico da obra é um pouco anterior ao período clássico grego. Este estilo chama-se severo. A simplicidade acrescenta-se à ligeireza e à economia das linhas do trabalho que testemunham a sabedoria do artista. Trata-se bem aqui de sabedoria porque, para conduzir, temos necessidade de sabedoria. O auriga é uma imagem mental que existe hoje através do motorista ou do piloto de corridas de automóveis. A velocidade como a rapidez ou a ligeireza com que nos deslocamos de um local para outro foi um objeto de entusiasmo ou seja de oferendas aos Deuses e ainda hoje os grandes pilotos de automóveis são admirados. O que admiramos é a velocidade, mas também a sua sabedoria « Sophia » para praticar a velocidade com conhecimento de causa. A sua capacidade de testar a máquina e participar apesar do perigo que representa para a sua vida. Reconhecemos as melhorias que traz pelo seu conhecimento e a a sua experiência que nos dá dos  carros mais seguros e mais protectores.


Tudo o mundo concordará com isto. A invenção da roda é o início da invençáo do veículo. Ela permite realizar transportes mais pesados e mais rápidos do que a pé e a cavalo, e com o tempo mais rápidos e mais pesados que a cavalo ou de comboio, o camião por exemplo. Os acidentes com cavalos, os acidentes de viação, de comboio foram de os todos tempos uma causa de gravíssimos danos pessoais e de perdas de vidas. Grace Kelly e Lady Diana são dois exemplos famosos. Nas nossas famílias contamos tudos vítimas da estrada. No tráfego diário, as condições são diferentes das corridas. O filme francês, Les choses de la vie (As coisas da vida)[2]é de uma comovente atualidade. A bordo do seu automóvel, o advogado Pierre Delhomeau, a caminho de Rennes onde ia defender um caso, perde a vida num acidente automóvel. O filme conta os últimos pensamentos dele antes de morrer. Ele deixa dramaticamente aqueles que ama deixando uma carta de ruptura no bolso, carta destinada à sua namorada, e as suas lembranças de alegria de viver.


No contexto da rede rodoviária a sabedoria existe para as nossas responsabilidades que não são as do circuito automóvel. Mas é importante ter alguns conhecimentos em física para compreender as forças que governam a condução de um veículo. Circulando com uma velocidade elevada torna-se mais difícil controlar o veículo. De facto ao descrever uma curva, a força entre os pneus e o pavimento aumenta com o quadrado da velocidade e com a amplitude da curva, o que, juntamente com a inércia do veículo, faz aumentar significativamente o risco de derrapagem e de despiste. Para integrar estes conselhos das seguradoras, temos de conhecer noções simples como a força de resistência, a quantidade de movimento, a velocidade, a massa. São conhecimentos básicos que são necessários a todos e todas, o que não podemos recusar às nossas crianças. A condução traduz o comportamento e a força de alma. Os carreteiros tinham a reputação de jurar quando estavam a manobrar. Jurar denota uma falta de força de alma, no entanto pode ser trabalhado por uma educação que ousa a criatividade e a audácia, superar as dificuldades evitando-as, incentivar a constância no esforço.


É a imagem do auriga que Platão escolheu para falar de retórica. O bem falar, vem da alma. Como em qualquer arte para bem falar é necessário amar. Platão fala por conseguinte de amante a propósito do orador e de amado a propósito do jovem. A alma do amante divide-se em três partes na imagem mental de Platon, o cocheiro, e uma parelha de cavalos. «Por sua vez o eleito deixa-se conquistar como segue : do mesmo modo que, no início desta história, dividimos cada alma em três partes, duas que são, por assim dizer, em forma de cavalo e a terceira de auriga, […] Dois, dissemos, um é bom e o outro não».[3]Entre o entusiasmo e a razão, o desejo e a virtude, saber utilizar toda a sua personalidade permite avançar na sabedoria. O carro alado de Platão avança pelo cavalo desagradável tanto quanto pela reserva e o temor do garanhão. Em francês o termo “garanhão” diz-se « étalon » o que significa também padrão: referência para medir, para julgar e ajustar. Para evitar um discurso que está demasiado a semear, sem matéria mas com os vincos do sensível, da afeição, das preocupações da heurística, a atrelagem precisa de ser bem equilibrada entre a medida e o desejo.

O desejo não é desprezível. «Detestava-o porque esquecia-se de me dar carinho […] Tinha duas razões de respeitar o meu professor : queria-me bem, tinha um hálito forte. […] Não me desagradava ter um ligeiro desgosto a superar : era a prova que a virtude não era fácil. […] confundia o desgosto com o espírito de seriedade. Era snobe. […] «O pai Barrault fede» e tudo girou : fugi chorando. A partir do dia seguinte recuperava o meu respeito para o Sr. Barrault, para a sua gola de celuloide e o seu laço. Mas, quando se inclinava sobre o meu caderno, desviava a cabeça retendo a minha respiração.»
[4]A obra de Jean-Paul Sartres, Les mots (As palavras) descreve a sua relação privilegiada com os seus mestres na sua infância. Dá também uma vista interessante da virtude. Sem negar a viturde, denuncia o snobismo que impõe más condições aos virtuosos que se implicam no estudo e trabalho com seriedade. A virtude não é fácil mais é prejudicial juntar-lhe más condições tais como o odor para o jovem J. P. Sartre. Por exemplo, produzir trabalhando regularmente 14h00 por dia, é prejudicial e esta situação põe os virtuosos na dificuldade.


No filme Décomposition symphonique n°9 pour accident de voiture[5]de Félix Etienne Tétrault podemos ouvir o som de uma respiração ou talvez o barulho da assistência respiratória acompanhada de baterias mais ou menos fracas de intensidade com sons agudos que recordam barulhos de máquinas, ritmos que dizem a vida. Quando o fôlego cessa então tudo acaba. Esta música de uma morte por acidente toca as nossas consciências. Todos os motoristas sabem que comprometem as suas vidas, as dos que o acompanham e a de terceiros presentes no tráfego em perpétuo aumento. Sadako Sasaki lança as suas mil gruas que acompanham a legenda de paz do origami. «Escrevi a paz nas tuas asas e voas pelo mundo de modo a que mais nenhuma criança morra assim». São as palavras de Sadako Sasaki. Quando a pessoa morre a sua rosa fecha-se sobre ela, a sua luz deixa o mundo sensível. Os modos de ser e a liberdade não estão ligados aos acidentes. Seria um pessimismo pensar contra os estoicos que os acidentes determinam as nossas escolhas, a nossa consciência. Seria um pessimismo acreditar que as chantagens ao trabalho, a amizade, a calúnia, a prisão pudessem alterar a pessoa. Gilles Deleuze na Logique du sens diz que tudo se joga na ligeireza de estar, no existir, nas crostas frágeis do dia a dia, do trabalho que fazem a vida, que fazem o ser, o plano da existência. O drama é morrer, escrever a carta como Pierre, a personagem de Paul Guimard, ou de estar desprezando, tudo o que faz os
cortes com o semelhante. Quando Pierre Curie, inventor com a sua esposa Marie da radiologia tão necessária à redução das fraturas, morreu sob um veículo pesado, quando Archimede, inventor do cálculo infinitesimal, é morto gratuitamente por um soldado, a relação cada vez é interrompida. A luz retira-se. A humanidade fecha-se um pouco. O ser existe no estar, na presença, na carne. Na morte, o pensamento da pessoa junta-se à memória e ao pensamento de Deus. Permanece movente para inspirar a criação amorosa do visível e do invisível. Na ressurreição, o céu da matéria volta a ser um elogio à Deus que manifesta assim o seu amor sobre todos os céus dos seus filhos. A imagem mental das gruas de Sadako Sasaki está no coração dos homens de todos os povos. A sua legenda está como o pássaro, uma relação entre lugares distantes da geografia física, do coração, do espírito ou da alma, quase nada entre o céu e a terra como os seus pequenos papéis dobrados ou como os papéis do Tibete. O acidente fecha uma rosa. Quando uma pessoa morre num acidente, todos têm a responsabilidade deste recue.


Quando estamos a conduzir os riscos nunca são zero. É necessário diminui-los para respeitar o outro, a sua vida e seus compromissos na sociedade. Para que as flores não permanecem em botão como no túmulo de Tutankhamon. A atualização do túmulo para os cientistas de hoje permite precisar as circunstâncias da morte e mostra esta família reunida com afeição no túmulo. « O importante é a rosa »[6].


A mensagem do Gorgias não é um interrogatório da retórica mas do mau uso que dela pode ser feito. Platão teme a retórica que persuade em vez de transmitir o saber. Ele vê lá um risco para a liberdade da alma e a República. Ele denúncia a desregulação de Callistes, o que está sem se preocupar dos outros : «E a alma? será boa quando nela predominar a desordem, ou quando estiver em ordem e harmonia?»[7]Na tradução francesa, a ideia de desregulação é mais precisa.
« Et notre âme sera-t-elle bonne si elle est déréglée ou si elle est réglée et ordonnée ? »[8] Giorgias acaba por um monólogo para a consideração dos silenciadores esses que não têm liberdade para se expressar e também os mortos. A presença ressonante deles estabelece a consciência. E se Platão tivesse tido esta palavra «consciência», ter-la-ia usado aqui. Na falta dela, ele dá-nos uma descrição da consciência que é útil para nós. No Gorgias, a imagem do homem morto, nú que julga, é o virtuoso frequentemente silencioso que não tem vergonha da sua nudez porque não tem nada a esconder, a imagem da verdade. Todos esses que morreram na estrada constituem o julgamento das mortes. Eles julgam a necessidade de uma conduta caridosa ao mais lento, velho ou cansado ou na posse de um veículo mais pesado, lento a travar ; os mais jovens que ultrapassam sem calcular bem as distâncias… As mortes também são as crianças, os passageiros, os peões, toda esta população inocente que vê-nos conduzir perdida nos choques das máquinas. São eles que nos julgam. « O juiz, também tem de estar nu e morto, para examinar com a sua alma as demais almas, logo após a morte, desassistido dos seus pais e que deixe todo esse ceremonial na terra de modo a que o julgamento seja justo. »[9]


A imagem do carro alado no Fedro de Platão é uma matriz. Quer dizer que é difícil distinguir a metáfora heurística do objeto discutido, a alma. Esta incerteza deixa um largo espaço virtual à reflexão. O Gorgias ameaça as pessoas do inferno. A sua chama é o olhar escaldante das inocentes mortes. Quando o julgamento da consciência é pronunciado como sendo favorável, então o céu de Fedro abre-se e a existência virtuosa metamorfoseia-se em sobrexistência amorosa, num existencialismo do amor. O Fedro é uma matriz voltada para o deus Eros (luz, místico) que é o amor componente da relação. Este amor, então, pode existir com todas as dobras da humanidade passadas no crivo da dialética e da virtude. Assim, volta a dar a sua importância à retórica que tinha sido eliminada pela corrupção. Naquilo, Platão está contemporâneo aos nossos problemas. Uma condução sem amor é perigosa.

 



[1]Museu arqueologico de Delfos.

[2]Claude Sautet, Les choses de la vie, 1970, filme com Romy Schneider et Michel Piccoli. O livro é de Paul Guimard, Les choses de la vie, Ed. Folio, 1973. O filme está à origem do livro.

[3] Platão, Fedro, Tradução : José Ribeiro Ferreira, Biblioteca Nacional de Portugal, Edições 70, 2009, p. 71.

[4]Jean-Paul Sartre, Les mots, Gallimard, 1964, pp. 66-68. « Je le détestais parce qu’il oubliait de me choyer […] J’avais deux raisons de respecter mon instituteur : il me voulait du bien, il avait l’haleine forte. […] il ne me déplaisait pas d’avoir un léger dégoût à surmonter : c’était la preuve que la vertu n’était pas facile. […] je confondais le dégoût avec l’esprit de sérieux. J’étais snob. […] « Le père Barrault pue » et tout ce mit à tourner : je m’enfuis en pleurant. Dès le lendemain je retrouvais ma déférence pour M. Barrault, pour son col de celluloïd et son nœud papillon. Mais, quand il s’inclinait sur mon cahier, je détournais la tête en retenant mon souffle. »

[5]Félix Etienne Tétrault: Decomposition simphonique n°9 para acident de carro, 2010, Internet: Artflx.olympe-network.com.

[6]L’important, c’est la rose, palavra : Louis Amade, música : Gilbert Bécaud.

[7]Platão, Gorgias, tradução : Carlos Alberto Nunes, Internet : scribd.com, LIX.

[8]Platon, Protagoras, Euthydème, Gorgias, Ménexène, Ménon, Cratyle, traduction : Émile Chambry, Flammarion, 1967, p. 256, 504b.

[9]Platão, Gorgias, tradução Carlos Alberto Nunes, Internet : Scribd.com, LXXIX, 524a.

Par Monique Oblin-Goalou - Publié dans : Articles en portugais
Ecrire un commentaire - Voir les 0 commentaires
 
Créer un blog gratuit sur over-blog.com - Contact - C.G.U. - Rémunération en droits d'auteur - Signaler un abus - Articles les plus commentés