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23 mars 2012 5 23 /03 /mars /2012 18:04

Os portugueses gostam de utilizar azulejos nas suas obras arquitectonicas  ? A geometria das decorações recorda às vezes a arte óptica em ritmos que cansam o olhar. Os motivos dos anos 60 não estão mais ao gosto dos nossos dias mas as realizações recentes testemunham a flexibilidade da humilde faiança.

A sua utilização assegura aos nossos interiores o conforto da limpeza nas casas de banho , nas cozinhas e nos hospitais. A louça de faiança no museu da marinha em Belém mostra a sua importância na melhoria das condições sanitárias dos viajantes para viajar mais tempo e mais distante. A faiança apresenta grandes qualidades de cores que iluminam os interiores tanto quanto as fachadas pela sua maneira de reter a luz. As cores não se alteram durante os séculos, fazendo da faiança um testemunho fiél das artes decorativas. A técnica usada na faiança e a historia não se opõem mas revisitam-se perpetuamente na criatividade dos seus artesãos. A faiança é uma técnica corrente das artes e da arquitectura. Esta frequência e a sua relação com a racionalidade permite de repôr a pergunta da estética.

O farol de Cascais é uma parte do Forte de Santa Maria. O Forte tem uma arquitectura militar seisentista. Foi construida quando o Conde de Cantanhede era Governador das Armas de Cascais. Em 2003-2005 com o projecto de recuperação do imóvel[1] de Cascais, as paredes são rebocadas e pintadas de branco. O interior do forte é pintado de branco e com azulejos monocromaticos brancos com um tom cinza-verde. O farol é exteriormente revestido de azulejos monocromaticos brancos e azuis.

As formas geometricas dos quarteis e as paredes brancas altas em azulejo ligeiramente esverdeado recordam o lado científico do farol e do museu. A luz da construção que reflete durante o dia, lembra a luz do farol à noite, do conhecimento do museu, pela apresentação das óticas de faróis e o seu poder de augmentar, magnificar a luz.

 

Em Lisboa, na Rua do Alcrim, foi recentemente construido um edifício do arquitecto Álvaro Siza Vieira. Os Terraços do Duque de Bragança propõem uma revisitação ao tema tecnico-científico usando o revestimento cerâmico. A arquitectura geométrica branca e a luz dos azulejos aclara a rua Alecrim. Como no farol, a aparência técnica que dão as formas geométricas da faiança junta-se a preocupação de conforto que traz a modernidade a estes apartamentos. Em 1998, Ivan Chermaieff utilizou o vocábulo técnico do azulejo nas composições do Oceanário. Recuperou a tradição de manufacturação do azulejo padrão para a figuração de grandes animais marinhos, tratada informaticamente.

 

O vocabulario dos azulejos é também útil ás imagens mentais da literatura de Lobo Antunes. Prisioneiro na cidadela interior da consciência, as suas imagens mentais surgem do seu amor para a Sofia, a saudade de sófia que não existe sem as relações. As descrições de Lobo Antunes fazem sobressair a carne imprecisa e imperfeita da humanidade na luz dos quadrados de faiança dos hospitais e das sanitas. Lobo Antunes é um médico e conta-nos o homem dissociado, disfarçado, desumanisado. Nada é separado e no seu aquario aseptizado impessoal o homem torna-se peixe, animal. Os ajulejos vêm demorar na pele no aquário brilhante impessoal que faz a quarta. « Quando ensaboo a cara, Sofia, sinto as escamas vitreas da pele nos meus dedos, os olhos tornam-se salientes e tristes como os dos gorazes na mesa da cozinha, nascem-me barbatanas de anjo dos sovacos »[2]. As escamas dos azulejos vidrados são os atributos do silêncio e o frasco, a imagem do caixão de chumbo. A mulher de quem gosta chama-se Sófia. Se esta mulher for a sabedoria, talvez a filosofia, então um sentido novo aparece. Sem amor e só com o desejo de universalidade, o ovo de ouro perde-se. « esta sede de amor raivoso que te escondo »[3]. « as rugas que em torno da boca se multiplicam numa fina teia misteriosa, idêntica à que cobre de leve os quadros de Leonardo »[4]. As obras de Leonardo da Vinci não puderam ser conservadas, não transmitiu a receita da sua pintura por negligência ou temor de compartilhar. O seu saber perdeu-se e com o tempo, o saber levará com ele as obras do mestre. O saber não pode ser sem amor. O temor e o terror destroem o amor e a Sofia. « Eu estava farto da guerra, Sofia, farto da obstinada maldade da guerra e de escutar, na cama, os protestos dos camaradas assassinados que me perseguiam no meu sono, pedindo-me que os não deixasse apodrecer… »[5] O médico permanece sozinho fechado nos seus conhecimentos geométricos da ciência. Porque a ciência não pode fazer nada, sem o amor, o meio da guerra. Para o autor de Os Cus de Judas, a ciência é uma prisão sem escuridão, sem dobras, apenas uns reflexos da humanidade. O seu amor fica sozinho na impessoalidade dos quadrados de faiança. Mas as suas obras são o encontro do amor na prisão da ciência. O vocabulário médico e a saudade tornam-se o molde e o negativo, a imagem escura que fica nos quadrados fechados e brilhantes da limpeza necessária. O personagem de Sofia permite um monólogo onde se exprime o sofrimento de viver sem a infancia, sem a alegria da amizade e do amor, na prisão do silêncio, na decepção das relações humanas. « lucidez sem ilusões dos bêbados de Hemingway que passaram, gole a gole, para o outro lado da angústia, alcançado uma espécie de serenidade polar […] Talvez desse modo se consigam sorrir risos de Sócrates depois da cicuta […] e consiga enfrentar a ferocidade da manhã dentro de um frasco de Logan que a proteja, tal como os cadáveres dos bichos se conservam em líquidos especiais nas prateleiras dos museus […] não se sentir perseguido pelos impiedosos fantasmas da propria solidão, de que os rostos sardónicos e tristes, tão semelhantes ao nosso, se desenham no vidro para melhor nos troçarem : há derrotas… »[6]. Nestas páginas antes a Sofia, dentro a saudade da Sofia, nos reflexos da luz no vidro as luzes sombras destacam-se onde a imaginação incita a ver os duplos de si mesmo onde o pensamento toma formas novas. O “imaginal”[7] forma-se sobre a superfície brilhante dos azulejos, nos reflexos luminosos da ciência impotente na frente do mistério da vida

« Uma das coisas, aliás, que me encanta em si, permita-me que lho afirme, é a inocência, não a inocência inocente das crianças e dos polícias, feita de uma espécie de virginidade interior obtida à custa da credulidade ou da estupidez, mas a inocência sábia, resignada, quase vegetal, diria, dos que aguardam dos outros e deles próprios o mesmo que você e eu, aqui sentados, esperamos do empregado que se dirige para nós chamado pelo meu braço no ar de bom aluno crónico : uma vaga atenção distraída e o absoluto desdém pela magra gorjeta da nossa gratidão. »[8]

 

Os trabalhadores silenciosos sabem que a humanidade não se resume aos números da produção. Tudo se joga entre a situação limite da sala de operação, onde os motivos poderiam desconcentrar a equipa médica, e a alegria de viver da criança presente em nós quando cantamos um refrão. Todas as pessoas têm o direito de guardar um pouco de tempo para compartilhar a alegria de viver na amizade e que a criança não se afasta da vida. « Eram felizes os gaiatos do Bairro Alto. Sentiam uma alegria interior muito grande e a esperança de serem sempre crianças. Eram donos da tradição da rua. Rapazes befejados pela sorte de terem vida. […] Tenho certeza que uma dela é a minha mãe, afirma o Bexigas com convicção e com os olhos cravados de saudade ».[9] A saudade é a capacidade de fazer marcas da vida, como as rugas ou a cicatrizes da varicela por exemplo, as estrelas e os sinais de um lugar ou uma terra[10] nova da alma onde viver em poeta.

A humanidade é desfigurada mas não é Antonio Lobo Antunes que tem os argumentos para denunciar o homem dividido na análise da ciência, nem é mim que parará os massacres dos inocentes[11] no egoísmo. A consciência de cada um pode sozinha vencer a desmoralização, a recusa da sabedoria. A batalha contra o sofrimento não tem fim e não pode ser só a responsabilidade do autro. Onde os padres da Igreja não conseguiram, onde os médicos não conseguiram, os poetas e os políticos não conseguirão também. Talvez a importância não seja a de conseguir mas de reconhecer a importância de cada um no amor e na simplicidade para abrir-mos as portas das citadelas dos medos.

 

Mesmo nas mais ocidentaies formas e vocabulário do pensamento como a ciência e a geometria e o numérico, a poesia e as imagens dos nossos sonhos encontram sombras ou reflexos onde o mundo imaginal se renova incessantemente. A superfície, mesma lisa, multiplica-se para surexistencias maravilhosas nas lagunas brilhantes do mundo sombrio dos peixes silenciosos, nas imagens mentais dos trabalhadores silenciosos. Temos necessidades da poesia e da escrita dos trabalhadores.

 



[1] Arquitectos Francisco Aires Mateaus e Manuel Aires Mateus, o projecto das estruturas é da autoría do engenheiro Joel Sequeira e a instalação electrica de Joule, o programa museológico é da responsabilidade de Joaquim Boiça, fruito de uma parceria entre a Câmara Municipal de Cascais e o Estado Maior da Armada Portuguesa.

[2] António Lobo Antunes, Os cus de judas, Edit. : Leya, rua Cidade de Córdova, n°2, Alfragide Portugal, p. 159.

[3] António Lobo Antunes, Os cus de judas, Edit. : Leya, rua Cidade de Córdova, n°2, Alfragide Portugal, p. 160.

[4] António Lobo Antunes, Os cus de judas, Edit. : Leya, rua Cidade de Córdova, n°2, Alfragide Portugal, p. 160

[5] António Lobo Antunes, Os cus de judas, Edit. : Leya, rua Cidade de Córdova, n°2, Alfragide Portugal, p. 162.

[6] António Lobo Antunes, Os cus de judas, Edit. : Leya, rua Cidade de Córdova, n°2, Alfragide, p. 140-141.

[7] O « imaginal » é uma palavra inventada por Henry Corbin a propósito da obra de Sohravardi. O imaginal é a projeção poética dos nossos pensamentos sobre o mundo sensível ao momento da tomada de consciência de algo. O imaginal é então também um meio heurístico de uma tomada de consciência comum, e uma transmissão dos conhecimentos, porque a consciência é o objecto primeiro do saber.

[8] António Lobo Antunes, Os cus de judas, Edit. : Leya, rua Cidade de Córdova, n°2, Alfragide, p. 25.

[9] Raquel Baltazard, Os gaiatos, Lidel, 2011, p. 18-20.

[10] A saudade aproxima se do imaginal de Henry Corbin, da boémia descrita na crónia de Cosmas, e na poésia de Fernando Pessoa e nas palavras de Bruno Schulz : « Ce qui m’unit à ce poète (Julius Wit) n’est pas seulement le même pays natal, la même contrée terrestre. S’il existe une géographie spirituelle, si dans ce monde intérieur nous occupons tel cercle, telle sphère nos confins avoisines… »Bruno Schulz, Œuvres, Paris : Ed. Denoël, 2004, p. 407.

[11] António Lobo Antunes, Os cus de judas, Edit. : Leya, rua Cidade de Córdova, n°2, Alfragide, p. 26.

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Published by Monique Oblin-Goalou - dans Articles en portugais
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